Monitoramento econômico e gerencial das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil · Serviço Nacional de Aprendizagem Rural · Centro de Inteligência em Gestão e Mercados – UFLA.
Projeto Campo Futuro — CNA/SENAR · Elaboração: Centro de Inteligência em Gestão e Mercados (CIM/UFLA)
A cafeicultura brasileira chega ao segundo semestre de 2026 com safra recorde — 66,7 milhões de sacas estimadas pela Conab, alta de 18% — e preços em correção após o ciclo excepcional de 2024/25. Com a alta dos fertilizantes ainda pressionando o custo de produção, a margem do cafeicultor estreitou pelos dois lados. Nesse quadro, o custo do crédito pesa no resultado tanto quanto o preço recebido.
O momento é oportuno. O Governo Federal lançou o Plano Safra 2026/27 em junho — R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões para a agricultura familiar, destes R$ 85,2 bilhões no Pronaf — e o Conselho Monetário Nacional definiu as condições do Funcafé para a safra (R$ 7,37 bilhões). Esta análise usa os dados primários dos 14 painéis de custo de produção de café da Safra 2026 para responder a duas perguntas concretas: quanto as novas taxas de juros representam, em reais por saca, no bolso do cafeicultor? E para quem o Funcafé — a única linha de crédito criada para o café — é realmente a melhor opção?
66,7 milhões de sacas estimadas pela Conab — alta de 18% sobre a safra anterior.
R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões para a agricultura familiar.
R$ 7,37 bilhões aprovados pelo CMN para a cadeia cafeeira na safra.
14 painéis de custo de produção de café da Safra 2026 como fonte primária da análise.
Convém fixar, antes dos números, quem acessa cada linha de custeio e sob quais condições.
Duas dessas condições merecem destaque porque são pouco conhecidas e mudam a conta do produtor. A regra dos 70% (MCR 10-2-1-"i") é específica do café, do leite, da fruticultura e da olericultura: na prática, um cafeicultor familiar pode faturar até cerca de R$ 714 mil e ainda se enquadrar no PRONAF. E o teto do FUNCAFÉ não amplia o limite de captação — ele é o mesmo teto geral do custeio com recursos controlados. Como tetos e critérios são revistos a cada safra, vale sempre confirmar as condições vigentes com o agente financeiro.
Feita essa distinção, os 14 painéis retratam realidades de financiamento muito distintas. Três propriedades operaram a safra integralmente com recursos próprios. Nas outras onze, a parcela do Custo Operacional Efetivo (COE) financiada variou de 17,7% a 90,0%, e a taxa contratada, de 3,0% a 12,5% ao ano.

Fonte: Projeto Campo Futuro CNA/SENAR, planilhas de painel Safra 2026. Elaboração: CIM/UFLA.
Dois padrões se destacam. Primeiro, a taxa segue a hierarquia das linhas oficiais: o PRONAF aparece nos seis painéis mais baratos (3,0% a 6,5%), o PRONAMP nos quatro seguintes (8,0% a 10,0%) e a maior propriedade do grupo — arábica irrigado, 60 ha — recorre à linha registrada nos painéis como Demais — crédito rural sem vinculação a programa específico —, a 12,5%, a mais cara do levantamento. Segundo, o custo do crédito nem sempre é marginal: na propriedade mais alavancada, que financiou 90% do custeio, os encargos consumiram R$ 86,07 por saca — 8,3% do COE e quase metade do lucro da safra (R$ 174,53/saca) —, enquanto na menos exposta, que financiou 17,7%, foram R$ 9,00. A diferença não vem da política de crédito: vem de quanto cada propriedade tomou emprestado por saca produzida. Vale ainda um registro sobre a maior propriedade do grupo: além do crédito bancário, ela usou barter de insumos equivalente a 14,13% do COE, registrado a juros nominais zero, de modo que, somadas as duas fontes, financiou 63,1% do custeio.
Esses números, porém, não esgotam o custo do dinheiro. Nenhuma das três propriedades sem financiamento pagou juros — mas capital próprio não é capital de graça: com a Selic no patamar de 15% ao longo do ciclo de custeio, cada real imobilizado deixou de render. O mesmo vale para o barter, cujo custo, a juros nominais zero, apenas migra para dentro da relação de troca entre insumo e produto, onde deixa de ser mensurável. E há o lado oposto, que é o mais importante: a taxa contratada é o piso do custo do crédito, não o custo. Somam-se a ela as despesas bancárias e de financiamento, o custo do projeto rural e o adicional do Proagro ou do Proagro Mais. Todos os onze painéis que tomaram crédito de custeio registram essas despesas, e o efeito é de outra ordem de grandeza.
Uma distinção importa nessa conta. Sete dos dez painéis com essa despesa registram Proagro ou Proagro Mais, identificados sem ambiguidade. Nos outros três, o lançamento aparece apenas como "seguro" ou "seguro custeio", sem separar seguro rural, prestamista ou garantia — e num deles esse item isolado responde por quase 80% de toda a despesa acessória do painel. Qualificar o tipo de cobertura, e com ela o prêmio médio por região e cultura, é tarefa para o próximo ciclo de levantamento.

Fonte: Projeto Campo Futuro CNA/SENAR, planilhas de painel Safra 2026 (aba de gastos de ponto de custeio e de gastos gerais). Elaboração: CIM/UFLA. Rendimento líquido de uma aplicação (12,0% a 14,7% a.a.).
Média dos onze painéis financiados — taxa nominal anunciada
Após inclusão de despesas bancárias, projeto rural e Proagro/seguro
Diferença entre taxa contratada e custo efetivo nos painéis financiados
O quadro é eloquente: a taxa média sobe de 7,6% para 13,0% ao ano quando se contabiliza o custo completo, um acréscimo médio de 5,4 pontos percentuais. Em quatro painéis, as despesas acessórias superam os próprios juros. E a diferença não é proporcional à taxa: ela depende sobretudo do peso do seguro e do projeto sobre o volume captado, de modo que um produtor de PRONAF a 6,5% pode terminar pagando mais, em termos efetivos, do que outro de PRONAMP a 10,0%.
A regra prática, portanto, é comparar o custo efetivo do crédito com o rendimento líquido da aplicação alternativa — não à taxa contratada com a Selic cheia. Feita nesses termos, a conta é bem menos favorável ao crédito do que a taxa anunciada sugere.
Taxa contratada + despesas bancárias e de financiamento + projeto rural + Proagro ou Proagro Mais. Em quatro painéis, as despesas acessórias superam os próprios juros.
Com Selic a 15%, cada real imobilizado deixou de render. Aplicação tributada: 12,0% a 12,4% líquidos a.a. LCA isenta para pessoa física: 12,8% a 14,7%.
Custo efetivo do crédito versus rendimento líquido da aplicação alternativa — não a taxa contratada versus a Selic cheia.
É sobre esse quadro que incidem as mudanças do Plano Safra 2026/27. As divulgações concentraram-se na queda do teto do PRONAMP, de 10,0% para 9,0% ao ano, mas outras duas alterações alcançam a cafeicultura e atingem públicos diferentes. No PRONAF, o café custeia a 5,5% ao ano, na faixa das demais culturas, ao passo que o café orgânico ou em transição agroecológica cai para 1,0% ao ano, a menor taxa de custeio disponível ao cafeicultor. Já a linha registrada nos painéis como Demais — crédito rural sem vinculação a programa específico, de quem não se enquadra nem no PRONAF nem no PRONAMP — recuou de 14,0% para 12,5% ao ano.
Vale uma ressalva sobre a dimensão do que foi anunciado: nem todo o volume corre às taxas aqui tratadas. No crédito de investimento, cuja composição o Ministério da Agricultura detalha, apenas R$ 34,7 bilhões dos R$ 140,2 bilhões têm juros controlados e equalizados — outros R$ 50,5 bilhões são de juros livremente pactuados, substancialmente acima dos tetos discutidos nesta análise.

Fonte: Ministério da Agricultura e Pecuária (Plano Safra 2026/27). Manual de Crédito Rural; Atualização nº 757, de 17/07/2026. Elaboração: CIM/UFLA.
Aplicando essas taxas sobre exatamente o mesmo volume captado por cada propriedade em 2026, chega-se ao efeito por painel.
Tabela 1 — Efeito simulado das novas taxas sobre os painéis financiados
Simulação sobre o mesmo volume financiado da Safra 2026. Fonte: Campo Futuro CNA/SENAR; Manual de Crédito Rural, Atualização nº 757, de 17/07/2026. Elaboração: CIM/UFLA.
Sete dos onze painéis financiados são alcançados — dois pelo PRONAMP e cinco pelo PRONAF. É um resultado bem mais amplo do que a leitura corrente sugere, e só aparece quando se olha o Plano Safra inteiro, e não apenas a manchete do PRONAMP. O alívio, porém, é desigual: vai de R$ 0,75 a R$ 8,61 por saca, conforme a alavancagem de cada propriedade. Quatro painéis ficam de fora, cada um por um motivo — dois já contratavam a 8,0%, abaixo do novo teto; um acessou linha de cooperativa da agricultura familiar, cuja taxa não mudou; e o maior já pagava exatamente o novo teto da linha Demais —, de modo que a redução favorece sobretudo quem estava pagando o máximo permitido.
A esse alívio soma-se um segundo benefício, que passou quase despercebido e que, para os mais alavancados, vale mais que a própria queda do teto. O produtor pode obter até 1 ponto percentual de redução no custeio: meio ponto por manter o CAR analisado e em conformidade, e outro meio por certificação de sustentabilidade — PI Brasil, Boas Práticas Agropecuárias, produção orgânica ou vínculo com o RenovAgro. O café não está desassistido nessa frente: são sete programas de boas práticas específicos de café hoje reconhecidos pelo Ministério da Agricultura.
Levando o PRONAMP a 8,0% ao ano, o alívio dobra: de R$ 8,61 para R$ 17,21 por saca na propriedade mais alavancada, quase 10% do lucro da safra. Duas ressalvas acompanham o número: o PRONAF está expressamente excluído desse desconto, de modo que os cinco painéis beneficiados pela nova faixa de 5,5% não o acumulam; e o benefício depende de portaria interministerial que habilite as certificadoras, sendo que a última vigorou até 30 de junho de 2026 e, até o fechamento desta análise, não foi localizada a sucessora para o ciclo 2026/27. Não se trata de exclusão da cafeicultura: programas de café já constavam das portarias de ciclos anteriores. O que falta é a republicação do ato para 2026/27. Antes de contratar, confirme a situação com seu agente financeiro.
Por manter o CAR analisado e em conformidade com a legislação ambiental vigente.
Por certificação de sustentabilidade: PI Brasil, Boas Práticas Agropecuárias, produção orgânica ou vínculo com o RenovAgro.
O PRONAF está expressamente excluído do adicional de sustentabilidade — os cinco painéis beneficiados pela nova faixa de 5,5% não acumulam o desconto.
A última portaria interministerial vigorou até 30/06/2026 e não havia sido localizada a sucessora para 2026/27 ao fechamento desta análise.
Resta a linha desenhada especificamente para a cafeicultura. Para 2026/27 o Funcafé teve orçamento de R$ 7,37 bilhões, aprovado pela Resolução CMN nº 5.289, de 26 de março de 2026, com o custeio caindo de 13,0% para 11,5% ao ano e as linhas de indústria e cooperativas (FAC e capital de giro) de 14,5% para 13,0%. E aqui está o achado de campo: nenhum dos 14 painéis reportou o Funcafé como linha de financiamento. As onze propriedades que tomaram crédito o fizeram via PRONAF ou PRONAMP — ambas mais baratas.
Isso, por si só, não prova dificuldade de acesso, já que quem é elegível a uma linha mais barata não tem por que buscar a mais cara. Há ainda uma possibilidade aberta desde a safra anterior: o produtor pode financiar simultaneamente em Pronaf ou Pronamp e no Funcafé, desde que tenha limite, e há relatos de cooperativas de crédito mineiras que compuseram esse mix. Nos 14 painéis da Safra 2026 ele não aparece: onze propriedades tomaram crédito por uma única linha e nenhuma combinou dois programas oficiais. É indício de que a prática está, por ora, no arranjo das instituições financeiras e não na decisão do produtor modal — hipótese que o próximo levantamento pode verificar perguntando diretamente ao painel.

Fonte: Manual de Crédito Rural, Atualização nº 757, de 17/07/2026 (MCR 7-1, 7-4, 7-5, 7-6 e 42-9). PRONAF não acessa os adicionais de sustentabilidade (MCR 3-2-6-C-"b"-I); Funcafé: Funcafé farmcomm. Elaboração: CIM/UFLA.
A resposta é desconfortável. O Funcafé não é competitivo para o pequeno produtor, que paga 5,5% no PRONAF — ou 1,0%, se certificado como orgânico. Tampouco para o médio, que paga 9,0% no PRONAMP e pode chegar a 8,0%. E, no maior porte, empata com a linha genérica: a linha Demais, disponível a qualquer cultura, cai para 11,5% quando o produtor comprova CAR regular e certificação — exatamente a taxa do Funcafé, sob o mesmo teto. O detalhe que produz esse empate merece registro: o Funcafé é a única dessas linhas que não acessa os adicionais de sustentabilidade, por não ser operação com recursos obrigatórios nem equalizada pelo Tesouro, e sim repasse de fundo setorial. Tampouco é verdade que o fundo amplie o limite de quem estoura o PRONAMP: seus R$ 3 milhões são o mesmo teto geral do custeio com recursos controlados.
O debate público sobre o Fundo tem girado em torno da compatibilidade entre as taxas e o porte do tomador: um pequeno produtor não deveria tomar crédito do Funcafé com o mesmo custo financeiro de uma grande indústria de torrefação. Os dados do Campo Futuro dão lastro a essa discussão e permitem enunciá-la com mais precisão: o problema do Funcafé em 2026/27 não é de acesso — é de atratividade. Um fundo criado especificamente para a cafeicultura chega a esta safra sem vantagem de preço sobre as alternativas, em nenhuma faixa de porte.
O diagnóstico é coerente com o próprio desenho do fundo: do orçamento de 2026/27, o custeio da lavoura responde por R$ 1,616 bilhão — 22% do total —, enquanto a comercialização concentra 37% e as linhas voltadas à indústria e às cooperativas, somadas, outros 39%. Vale registrar, em contrapartida, o que o fundo segue fazendo bem e que este levantamento não alcança: comercialização, financiamento para aquisição de café e capital de giro atendem indústria, cooperativas e exportadores em operações que nenhuma linha de custeio cobre. O diagnóstico acima diz respeito ao custeio da propriedade rural.
Toda essa aritmética pode ser refeita por qualquer produtor com duas informações, bastando dividir o valor financiado por hectare pela produtividade em sacas por hectare e multiplicar por 0,01 — o resultado é quanto vale, em reais por saca, cada ponto percentual de juros.
Quem financia R$ 15.000/ha e colhe 30 sacas/ha faz (15.000 ÷ 30) × 0,01 = R$ 5,00 por saca para cada ponto percentual; multiplicando pela diferença entre duas linhas — os 9,0% do PRONAMP e os 11,5% do Funcafé, por exemplo, uma diferença de 2,5 pontos —, chega-se ao custo comparativo real de R$ 12,50 por saca a mais ao optar pelo fundo.
A leitura é direta: quanto maior o valor financiado por saca produzida, mais cada ponto percentual pesa. Nos painéis levantados, um mesmo ponto valeu de R$ 1,50 a R$ 8,61 por saca.
O crédito voltou a ser, em 2026, tão decisivo para o resultado do cafeicultor quanto o preço recebido. Os painéis mostram uma cafeicultura estratificada pelo acesso ao crédito: de um lado, propriedades sem custo financeiro ou com taxas de PRONAF; de outro, propriedades para as quais um único ponto percentual equivale a vários pontos de rentabilidade. Aplicadas as condições de 2026/27, sete dos onze painéis financiados registram redução de encargos, de R$ 0,75 a R$ 8,61 por saca.
Com a linha Demais em 11,5% para o produtor certificado, mesma taxa e mesmo teto do fundo, o Funcafé perdeu a função de oferecer condição diferenciada ao cafeicultor. Duas frentes se abrem: rever sua taxa de custeio frente às demais linhas do Plano Safra e avaliar a extensão dos adicionais de sustentabilidade às operações com recursos do fundo.
Enquanto não sair, o benefício de até 1 ponto percentual anunciado no Plano Safra permanece indisponível na prática — o que, para os painéis mais alavancados, significa até R$ 8,61 por saca não realizados.
O cômputo de apenas 70% do faturamento do café no enquadramento do PRONAF e a taxa de 1,0% ao ano para café orgânico ou agroecológico — ambas pouco conhecidas e altamente relevantes.
Nos painéis de 2026, as despesas acessórias acrescentaram, em média, 5,4 pontos percentuais à taxa anunciada, levando o custo médio de 7,6% para 13,0% ao ano — diferença grande o bastante para inverter a decisão em boa parte dos casos.
Ficam registradas para consulta as tabelas que sustentam os gráficos apresentados ao longo da análise.
Fonte: Projeto Campo Futuro CNA/SENAR, planilhas de painel Safra 2026. Elaboração: CIM/UFLA. As condições registradas são as contratadas sob as regras vigentes à época do levantamento, anterior ao Plano Safra 2026/27.
Despesas acessórias: despesas bancárias e de financiamento, projeto rural e Proagro ou Proagro Mais, conforme registrado na aba de gastos gerais de cada painel; em três painéis o lançamento aparece apenas como "seguro", sem especificação do tipo. Custo efetivo = (juros + despesas acessórias) ÷ parcela financiada por saca. Fonte: Projeto Campo Futuro CNA/SENAR, planilhas de painel Safra 2026. Elaboração: CIM/UFLA.
Taxas-teto nominais; o custo efetivo inclui ainda Proagro ou seguro, despesas bancárias e projeto. Fonte: Manual de Crédito Rural, Atualização nº 757/2026. Elaboração: CIM/UFLA.
A primeira nota diz respeito à necessidade de custeio que se desenha para a safra 2026/27, em cenário construído a partir de premissas explícitas de reajuste — não uma previsão. O COE de 2026 foi recalculado por perfil, ponderado pela produção de cada painel, e projetado com índices diferenciados: fertilizantes +15%, pela pressão da ureia e pela restrição chinesa às exportações de fosfatados; corretivos e fitossanitários +8%; e demais itens +4,7%, pela média das projeções do Boletim Focus para o IPCA de 2026 e 2027. Os juros foram mantidos nominalmente, para não duplicar a análise das Tabelas 1 e 4.

Cenário com premissas explícitas (ver metodologia no texto) — não é uma previsão. Elaboração: CIM/UFLA.
Cruzando a necessidade projetada com os tetos oficiais, estima-se a área a partir da qual cada perfil deixaria de caber no PRONAF (R$ 250 mil) ou no PRONAMP (R$ 1,5 milhão): de 6 a 10 hectares para o teto do PRONAF e de 35 a 61 hectares para o do PRONAMP, conforme o perfil. Entre os painéis de 2026, três propriedades já têm necessidade total de custeio acima do teto do PRONAMP, e duas das que acessaram o PRONAF já superam o teto dessa linha — mas nenhuma está de fato restrita por esse limite, já que todas financiaram bem abaixo dele.
A segunda nota registra a base normativa. Todas as condições de 2026/27 citadas nesta análise vêm do Manual de Crédito Rural (MCR), Atualização nº 757, de 17 de julho de 2026, que consolida as Resoluções CMN 5.311 a 5.329.
Café na faixa de "demais culturas" (item 1.2-7), a 5,5%; orgânico e agroecológico a 1,0% (itens 1.2-2 e 1.2-3); cooperativas da agricultura familiar a 3,0% (item 1.1-4). Limite de R$ 250 mil (Tabela 2) e enquadramento no MCR 10-2.
Tabelas 1 e 2, a 9,0% e com teto de custeio de R$ 1,5 milhão. Enquadramento no MCR 8-1-1.
Tabelas 1 e 2, com custeio, comercialização, opções e recuperação de cafezais a 11,5%; FAC e capital de giro a 13,0%. Beneficiários no MCR 9-2.
Tabelas 1 e 2, a 12,5% e com teto de R$ 3 milhões para custeio com recursos controlados.
Meio ponto por CAR e meio ponto por certificação, vigente de 1º/07/2026 a 30/06/2027. Exclusão do PRONAF no MCR 3-2-6-C-"b"-I. As Tabelas 1 do MCR 7-1 e 7-4 remetem ao 3-2-6-A; a do MCR 7-5 (Funcafé), não.
A terceira nota detalha a comparação entre custo efetivo do crédito e custo de oportunidade do capital. Do lado do crédito, somam-se à taxa contratada as despesas bancárias e de financiamento, o projeto rural, o Proagro ou o prêmio do seguro rural e, em várias regiões, taxas cartorárias; o crédito rural é isento de IOF. Todos esses itens são levantados na aba de gastos gerais dos painéis, e é dessa apuração que sai a Tabela 3: as despesas acessórias variaram de R$ 3,00 a R$ 39,24 por saca e elevaram o custo do crédito, em média, de 7,6% para 13,0% ao ano.
Do lado da aplicação, o parâmetro correto é o rendimento líquido: com a Selic no patamar de 15% do ciclo de custeio de 2026, uma aplicação tributada rendeu entre 12,0% e 12,4% líquidos ao ano, conforme o prazo e a alíquota de imposto de renda, enquanto uma LCA, isenta para pessoa física, rendeu entre 12,8% e 14,7%.
O confronto altera a leitura de forma relevante. Comparado pela taxa contratada, o crédito parece amplamente vantajoso: apenas o painel que tomou a 12,5% se aproxima do rendimento de uma aplicação. Comparado pelo custo efetivo, o quadro se inverte. Em quatro dos onze painéis financiados o custo efetivo ficou abaixo de 12,0% ao ano e financiar segue claramente compensando; em um deles a decisão é indiferente; e nos seis restantes o custo efetivo superou 12,8% ao ano, ou seja, ultrapassou até o rendimento de uma LCA isenta.
Não se trata de dizer que esses produtores erraram: crédito de custeio cumpre também função de liquidez e de gestão de risco, e nem todo produtor tem capital disponível para escolher. Trata-se de mostrar que a decisão exige a conta completa — e que, feita pela taxa anunciada, ela induz ao erro.
Reprodução permitida desde que citada a fonte: Projeto Campo Futuro – CNA/Senar. Elaboração: CIM/UFLA.